Inovação e gestão empresarial

Ester Feche no lançamento na Livraria Martins Fontes - foto: Arthur Gandini

Em livro, associada da ABES-SP aborda gestão sustentável para o saneamento em áreas de vulnerabilidade social

Por Sueli Melo

“A discussão da inovação é a base para sairmos do patamar que estamos e darmos um salto de qualidade. Ela deve ocorrer no legislativo, judiciário e Ministério Público conferindo um olhar de inclusão social e de compreensão das priorizações do setor para alcance da universalização.”

A afirmação é da engenheira Ester Feche Guimarães, associada da ABES Seção São Paulo (ABES-SP) e uma das autoras do livro “Gestão Empresarial e Sustentabilidade”, da Edições Manole, lançado no final de 2016 em São Paulo. A obra, que é coordenada pelo Prof. Dr. Arlindo Philippi Jr. e reúne diversos professores da Universidade de São Paulo, contempla a inovação empresarial nos temas de sustentabilidade e nos desafios sociais ao redor do mundo.

Ester Feche assina um capítulo do livro, em parceria com Tadeu Malheiros, orientador da tese de doutorado defendida por ela em 2015 e que deu origem ao artigo. A engenheira disserta sobre modelos de gestão empresarial para saneamento em áreas carentes da América Latina, África e Índia, além do estudo de caso Sabesp e Copanor.

Nesta entrevista concedida ao Portal ABES, a engenheira revela, entre outros pontos, detalhes desses modelos e os desafios enfrentados no processo de construção da tese. Ester Feche destaca, ainda, em relação à inovação do saneamento no Brasil, que o PNQS – Prêmio Nacional de Qualidade em Saneamento, que é promovido pela ABES, é uma boa ferramenta para melhoria das práticas de gestão.

Confira a entrevista a seguir

ABES Notícias – Como surgiu a ideia deste tema para sua tese de Doutorado?

Ester Feche – Quando decidi fazer o doutorado já participava de diversos programas de qualidade da gestão empresarial para a empresa onde trabalho e também de projetos institucionais e regulatórios do setor de saneamento para a ABES. Então, identifiquei dentro dos principais problemas que se discutia, um tema de pesquisa aplicada que pudesse trazer contribuições às práticas de gestão das empresas de saneamento frente aos desafios da universalização, que dialogasse com o atual modelo institucional e regulatório do país.

ABES Notícias – Quanto tempo durou sua pesquisa até a finalização da tese e qual foi o maior desafio neste percurso?

Ester Feche – Minha pesquisa durou 3 anos e meio. Parte dela em São Paulo e parte em campo na Baixada Santista. Encontrei muitos desafios nesse percurso como: conciliar a pesquisa de doutorado com os objetivos empresariais, elaborar um projeto bem fundamentado com uma metodologia que permitisse alcançar os objetivos a que se propunha, escolher disciplinas de diferentes departamentos da USP, como engenharia, economia, administração, direito e até antropologia alinhados para uma contribuição efetiva a pesquisa, e até o de identificar o momento de finalização, uma vez que os desafios são gigantescos no Brasil. Divido em 3 etapas este percurso. Na primeira, me dediquei a pesquisar os fundamentos teóricos da gestão do saneamento e as práticas no Brasil e no mundo. Na segunda etapa comecei a catalogar e clusterizar as melhores práticas empresariais, entrevistar gestores públicos, privados, financeiros, acadêmicos, legisladores, sociedade civil organizada e cidadãos. Neste ponto a ABES foi o principal campo de entrevistas e questionários aplicados no Brasil. A terceira foi um mergulhar em dados para elaborar uma análise dos resultados que permitisse repensar e inovar nossos modelos.

ABES Notícias – Qual é a importância da inovação e gestão empresarial voltada para o saneamento?

Ester Feche – A inovação e a gestão empresarial que trarão alternativas para que o setor de saneamento no mundo alcance os desejáveis objetivos de universalização, eficiência técnica e eficácia social. A discussão da inovação é a base para sairmos do patamar que estamos e darmos um salto de qualidade. Ela deve ocorrer no legislativo, judiciário e Ministério Público conferindo um olhar de inclusão social e de compreensão das priorizações do setor para alcance da universalização. Isso ocorre por parcerias com a gestão empresarial. A inovação deve passar pelas relações empresariais com as comunidades que devem ser parte da solução e manutenção desta. Deve passar pela forma como se financia e equaciona a demanda de recursos financeiros. A gestão empresarial pode sensibilizar e propor novos modelos para esses mercados. Mas tudo isso só funciona num modelo com uma estratégia específica, coordenação articulada e continuidade de programas e projetos. O saneamento tornou-se interesse de diversos grupos e empresas no mundo com a missão de contribuir para uma melhor qualidade de vida e do meio ambiente – as Enterpreunership, assim como grupos de investidores escolhem menores retornos investimentos para maiores retornos socioambientais – os chamados Fundos de Impacto Social.

ABES Notícias – Como está esta questão no Brasil?

Ester Feche – Primeiramente, precisamos diferenciar modelo de gestão, de negócio e institucional de forma simples. O modelo de gestão é interno a organização, são programas de qualidade e processo, e sua a inovação afetará a qualidade dos processos internos promovendo resultados externos. A centralidade do modelo de negócio é o olhar para fora da organização, seus clientes, recursos, retornos e valor. O modelo institucional deve dar alicerces para que os outros dois sejam viáveis para os atuais e futuros participantes desse setor. É evidente que o setor de saneamento no Brasil avançou nos últimos anos. Temos um marco regulatório fazendo dez anos, agências reguladoras criadas, municípios fazendo planejamento, mas em que proporção em relação a necessidade do país? Penso que temos uma longa jornada pela frente. O atual modelo para atingir os objetivos e metas preconizados no Plansab – Plano Nacional de Saneamento requer inovação que não depende apenas da gestão empresarial, mas de um novo modelo institucional do setor. O regulador é fundamental nestes equacionamentos. Importantes instituições têm promovido discussões para mudanças no setor, mas ainda não temos um movimento sanitarista articulado que conscientize organizações e sociedade para uma inovação do setor de infraestrutura. Mais do que isto, o modelo deve ser garantidor para que novos entrantes possam ser atraídos. Talvez a modelagem das privatizações pelo BNDES tendo sucesso, promoverá melhorias da gestão empresarial, mas ainda é cedo para saber. No caso da gestão para sustentabilidade temos boas práticas no Brasil, alguns premiados pelo PNQS, mas o setor é muito desigual sem uma uniformidade e penso que PNQS é um bom instrumento para melhoria das práticas de gestão. No entanto, nada é imediato. É necessário perseverar!

ABES Notícias – Para a sua tese, você diz que fez um levantamento dos modelos de gestão na América Latina, África e Índia que contribuíram para a realização de serviços em áreas de exclusão social. Poderia destacar esses modelos?

Ester Feche – As práticas de gestão do América Latina, África, Índia estão no contexto da universalização e empreendedorismo. Por outro lado, as da Europa e EUA estão no contexto dos modelos institucionais e regulatórios adotados por grandes empresas empreendedoras, que testaram modelos de negócio inovadores para prestação de serviços públicos de saneamento e energia em países em desenvolvimento. Uma pesquisa do Banco Mundial analisou grandes empresas de serviços de energia e gás na Venezuela, Argentina, Colômbia e Peru no seu esforço para desenvolver um modelo de negócio que atendesse a população de baixa renda. Para eles deve-se observar diversos aspectos, tais como: a crescente urbanização da pobreza; o acesso ilícito de serviços básicos; os custos elevados de operação; e a indefinição de uma estratégia empresarial. As pesquisas feitas na Índia analisaram modelos de negócios sustentáveis para prestar serviços às populações pobres por meio de soluções de mercado, ou seja, negócios da economia formal que ajudaram a melhorar as condições de vida das pessoas que estão na base da pirâmide econômica. As 300 iniciativas de mercado estudadas revelaram modelos de negócio populares que trabalhavam, ou procuravam trabalhar em escala.

ABES Notícias – E de que forma efetivamente eles auxiliaram esses serviços nessas áreas carentes? Quais foram os resultados?

Ester Feche – Nesses locais, empresas privadas socioambientais de água em áreas de baixa renda como a Oxfam, WaterAid e Unilever Sunlight criaram centros de água no coração de comunidades urbanas, onde a água é bombeada de poços, tratada e vendida a baixo custo, ao lado de alimentos e produtos domésticos, oferecem emprego a nível local e reinvestem o lucro na conservação e manutenção dos sistemas, gerando valor na cadeia produtiva e apoiando ONGs locais. Empresas sociais na África, Índia e Sul da Ásia são flexíveis, tem salários e custos menores e os rendimentos retornam para as comunidades, possuem estruturas de pagamento adequadas, mantendo ativos, reduzindo intermitência, informando exatamente quando o serviço será executado ou interrompido. São modelos nos quais a iniciativa privada e a sociedade civil se organizam para soluções socioambientais que devem ser considerados.

ABES Notícias – Alguns destes modelos poderiam ser usados aqui no Brasil? 

 Ester Feche – Penso que todos são modelos possíveis, mas deve-se ter soluções caso-a-caso. O empreendedorismo social pode funcionar de forma eficiente, produzir excedentes das receitas sobre custos, remunerar investimentos e expandir o negócio. Já pode-se identificar modelos diferentes nas empresas de saneamento e municípios. O modelo condominial adotado no nordeste do Brasil tem esta característica da prática de gestão, sendo que o modelo institucional está apoiado no Estado. Há um modelo idêntico na África do Sul também com excelentes resultados.

ABES Notícias – O que você destaca no caso Sabesp e Copanor?

Ester Feche – São modelos diferentes. Para a Sabesp, o capítulo do livro apresenta uma das práticas de gestão – o Programa Córrego Limpo, com enfoque no modelo de gestão e das práticas colaborativas, com a participação do Poder Concedente, comunidade e concessionária. Os agentes comunitários são os empreendedores, nesse sentido, são chamados pela literatura internacional de change makers. O modelo é centrado no contexto realizador do empreendedorismo e vocação desses profissionais. Na tese são apresentadas outras práticas da SABESP.

Para a Copasa, o capítulo apresenta a construção um modelo de negócio inovador. A criação de uma subsidiária, a COPANOR, estabelece uma estratégia, coordenação e objetivos diferentes da COPASA para prover serviços públicos no Vale do Jequitinhonha, uma das regiões mais pobres de Minas Gerais. Nesse modelo, os investimentos são providos pelo Estado e os custos são cobertos por tarifas locais menores que as da Copasa. É o empreendedorismo socioambiental de uma grande empresa, chamado de Entrepreneurships.

ABES Notícias – De que forma o seu trabalho pode contribuir para as questões relacionadas ao saneamento em nosso país?

Ester Feche – A primeira contribuição é que não há um modelo. Cada solução deve ser implantada após uma análise do contexto social, ambiental, institucional, jurídico e financeiro e deve se construir um programa aderente ao contexto que garanta atingir os objetivos empresariais e socioambientais. A situação do saneamento em nosso pais demanda inovação urgente, mas esse tema merece uma coordenação institucional para algumas garantias necessárias nessa matéria. Em diversos países Fundos Garantidores e subsídios têm promovido grandes avanços e aumento da participação de investidores privados e empreendedorismo.

ABES Notícias – Algo que gostaria acrescentar?

Ester Feche – A inovação da gestão deve reduzir barreira de entrada financeira com mecanismos de subsídios à demanda; desenvolver estratégias inovadoras de subsídios de crédito por meio de fundos garantidores e de investimentos para atrair investidores de impacto social, atrair parceiros privados e empreendedorismo; reduzir custos dos serviços com a inclusão dos cidadãos corresponsáveis pelos ganhos da eficiência dos serviços e da gestão da demanda na cadeia de valor; garantir uma gestão estratégica sociotécnica; e promover o desenvolvimento do regulador e do poder concedente por meio de capacitação e implantação de normas e processos de mecanismos inclusivos. Por outro lado, a inovação e gestão empresarial devem ser capazes de reorganizar os processos, a fim de criar benefícios socioambientais em uma série de iniciativas de gestão e medir valor econômico, ambiental e social, de forma a garantir a eficiência e eficácia da prestação dos serviços continuamente.

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