Discurso de Posse do Presidente Nacional da ABES – Biênio 2016/18

Por Roberval Tavares de Souza, presidente da ABES

Senhoras, senhores, amigos e amigas, boa noite (agradecimento a todas as autoridades presentes).

É com muita satisfação e orgulho que assumimos hoje a presidência da mais importante entidade representativa do saneamento ambiental do país.

Como vimos agora há pouco no vídeo comemorativo, em seus 50 anos a ABES esteve e está presente atuando para cumprir sua missão, que é “ser propulsora de atividades técnico-científicas, político-institucionais e de gestão que contribuam para o desenvolvimento do saneamento ambiental, visando à melhoria da saúde, do meio ambiente e da qualidade de vida das pessoas”.

Missão que a cada dia se torna mais desafiadora por conta da péssima situação em que se encontra o saneamento ambiental no Brasil, esse país continental, com índices diferentes, mas que na média são ainda muito ruins.

Segundo o SNIS, a média brasileira de acesso à água potável é de 83%, ou seja, ainda temos 34 milhões de brasileiros que não têm acesso a água potável. Apenas 50% têm coleta de esgoto e 41% contam com tratamento. Isto significa que apenas 20% da população brasileira conta com o serviço completo de coleta e tratamento de esgoto. Na área de resíduos temos 74% dos domicílios com coleta de lixo e ainda temos muito o que avançar na área de drenagem. Estes números nos mostram como ainda estamos muito longe da universalização do saneamento ambiental.

Esses índices, ainda tão distantes do ideal, favorecem a proliferação de muitas doenças, dentre elas três, que têm tirado o sossego da população e dos governos: a dengue, a zika e a chikungunya. Como a própria ABES já alertou, só ganharemos a guerra contra o mosquito Aedes Aegypti com saneamento básico!

E não é novidade pra ninguém que para cada um real investido em saneamento o sistema de saúde economiza 4 no tratamento de doenças causadas pela ausência dele.

Apesar de sua irrefutável importância, infelizmente o saneamento é um dos segmentos mais atrasados da infraestrutura brasileira. Em uma escala de desenvolvimento e competitividade, o saneamento só ganha do segmento dos portos, perdendo para rodovias, ferrovias, aeroportos, energia e telecom.

Hoje, há mais escolas públicas com acesso à internet do que com saneamento: 41%, contra 36%, respectivamente.

Não desmerecendo a relevância do acesso à internet, sobretudo nos dias hoje, o fato de termos mais da metade das escolas do país sem coleta de esgoto, um terço delas sem rede de água e um quarto sem coleta de lixo demonstra a inversão de prioridades por parte de nossos gestores, nos mostra como o saneamento vem sendo relegado nos últimos anos.

Mesmo em São Paulo – que é o estado mais competitivo do Brasil e com a melhor infraestrutura instalada – temos muito o que avançar no tratamento de esgoto, drenagem e resíduos sólidos, com políticas públicas mais efetivas para o setor.

Ainda para ilustrar a nossa dura realidade, cito um trecho de postagem recente na página do Facebook do jornalista André Trigueiro, especializado em meio ambiente, após visitar a Baía de Guanabara para verificar as condições das raias onde serão realizadas as provas olímpicas:

“A Baía de Guanabara não é lixeira nem latrina. Ecobarreiras e ecobarcos jamais serão solução. Chega de vexame! Falta um plano integrado de despoluição e saneamento, uma política de Estado (e não de governo) que mobilize a sociedade.

Os jogos passam. A baía fica”.

Esse cenário é fruto de anos de descaso por parte das autoridades, com a má gestão, a corrupção, falta de vontade, falta de planejamento e de políticas públicas efetivas que garantam a continuidade das ações, independentemente de projetos de poder ou de interesses imediatos.

A maioria de nós elege os governantes e representantes e depois não acompanha sua atuação, não cobra suas responsabilidades, assim como não participa ativamente de entidades da sociedade civil que podem contribuir para o desenvolvimento do país. A ABES é uma delas e nós realmente podemos fazer a diferença nesse cenário.

Senhoras e senhores, depois da situação assustadora que mostramos, é hora de dar um pouco de alento a vocês. Nem tudo é desolador em nosso setor, também tivemos avanços importantes que merecem nosso reconhecimento.

O processo eleitoral para a Diretoria da ABES deste ano, com duas chapas concorrendo, nos trouxe muito aprendizado, intensos debates de propostas e ideias e proporcionou o conhecimento de realidades distintas.

Por isso, cumprimento Célia Rennó, que neste momento representa todos os colegas da outra chapa.

Passada a eleição, aproveito a ocasião para reforçar a nossa postura de parceria. É hora de união em prol do saneamento, por isso, desde já, fica o nosso convite à participação em nossa gestão.

As pesquisas e inovações promovidas pela academia em parceria com governos ou instituições públicas e privadas, como podemos verificar em nossos congressos e seminários, trouxeram grandes avanços e soluções.

Ganhamos a Lei 11445 de 2007, que dá as diretrizes e regulamenta o setor, o que nos trouxe melhorias nos últimos anos, e não tenho dúvidas de que continuará trazendo.

Definimos o endereço do saneamento, que é o Ministério das Cidades, na Secretaria Nacional de Saneamento, órgão responsável por criar as políticas púbicas do setor.

E também tivemos recursos financeiros disponíveis para investimentos. Cito como exemplo que, de 1995 a 2014, foram mais de 170 bilhões de reais gastos em abastecimento de água e esgotamento sanitário.

Para melhorar a questão financeira, está em discussão, ainda, a utilização dos créditos do PIS/Cofins para investimentos no setor, o que pode trazer recursos que hoje somente oneram e tornam mais lenta a caminhada rumo à universalização.

E, falando nisso, olhando para frente, qual o cenário que podemos esperar no futuro?

Precisamos garantir os investimentos que haviam sido previstos e sabemos que com a grave crise política e econômica dos últimos dois anos o desafio é ainda maior.

Por isso, as políticas públicas e entidades como a ABES têm que incentivar a melhoria da gestão para que o setor seja mais eficiente, fazendo com que os esforços sejam assertivos e os resultados ganhem maior amplitude.

A eficiência da gestão pode contribuir muito, por exemplo, na questão das perdas de água, cuja média do Brasil nos deixa indignados: 37%.

Na discussão da eficiência, se o serviço é público ou privado, para a ABES a discussão é ultrapassada, nós queremos mais eficiência, cumprimento dos instrumentos legais e que a sociedade seja atendida com qualidade.

Somente com uma boa gestão e capacidade técnica será possível gastar os mais de 500 bilhões de reais apontados no Plano Nacional de Saneamento Básico, o Plansab, como necessários para que se alcance a universalização do saneamento no país. Para se ter ideia, para que essa meta seja cumprida, precisamos investir 15 bilhões por ano pelos próximos 20 anos!

E, concluindo, quero ainda dizer que na gestão do meu colega Dante Ragazzi Pauli, a ABES fez o seu papel em benefício do saneamento e vamos continuar esse excelente trabalho com a nossa gestão.

Para isso, vamos realizar ainda essa semana o planejamento estratégico da ABES para os próximos dois anos, baseados nas contribuições das Seções Estaduais, dos conselheiros e das Câmaras Temáticas. Assim, vamos dar os passos necessários para fortalecer o saneamento ambiental e dar mais peso para esse tema tão relevante e urgente no país.

Como ninguém consegue transformar um sonho em realidade sozinho, será fundamental ter atitude e uma liderança que promova a união, o diálogo e inspire as pessoas a buscar o futuro, a trabalhar para que as coisas aconteçam.

Não podemos deixar os graves problemas de agora para as futuras gerações. É urgente que cada um nós faça a sua parte para reverter esse quadro e finalmente atingir o sonho de todos nós, sanitaristas, que é ter o saneamento ambiental universalizado.

Teremos nos próximos dois anos um grande desafio, o desafio de contribuir para a melhoria da qualidade de vida e do meio ambiente do nosso país, que é gigante pela própria natureza. Um país de grandes diferenças regionais e sociais, muitas vezes tão grandes quanto a distância do Oiapoque ao Chuí.

E conto com todos vocês para que a nossa ABES seja cada vez mais forte e transparente!

Agradeço a Deus, acima de tudo por este grande aprendizado que já estou passando, ao meu pai, que me transmitiu os melhores valores que um ser humano pode ter, aos meus filhos Leticia e Guilherme, que são a minha razão de existir, e em especial, a minha esposa Samanta, que é acima de tudo uma grande parceira, companheira e incentivadora nesta nova empreitada da minha vida.

Um forte abraço a todos, vamos à luta!

Obrigado e boa noite

São Paulo, 26 de julho de 2016.

Para ver o álbum de fotos da cerimônia de posse, acesse aqui.

 

1 Comentário em Discurso de Posse do Presidente Nacional da ABES – Biênio 2016/18

  1. Caro Roberval, parabéns pela clareza de idéias. Conte comigo e com o IPEG para promover o grande salto para frente na gestão em saneamento em parceria com o novo CNQA. Abs

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