Poluição do ar é problema de saúde pública, dizem especialistas no 13º Encontro Técnico de Alto Nível Contaminação Atmosférica e os Desafios das Megacidades

Por Sueli Melo e Arthur Gandini

A Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental Seção São Paulo (ABES-SP) e a Associação Interamericana de Engenharia Sanitária e Ambiental – AIDIS promoveram, nos dias 21 e 22 de julho, o 13º Encontro Técnico de Alto Nível Contaminação Atmosférica e os Desafios das Megacidades. O evento, que reuniu diversos especialistas das áreas da saúde e ambiental do Brasil, Uruguai, Venezuela, Chile e México, ocorreu no auditório Tauzer Quinderé, na Sabesp, em São Paulo.

Para os especialistas presentes no evento, que foi dividido em dois painéis, a poluição do ar é uma questão de saúde pública grave. E o crescimento continuo da frota de veículos automotores representa hoje o principal problema de contaminação nas grandes cidades e centros urbanos. Mas ainda assim, não é dada ao tema a atenção merecida, como ressaltaram os participantes. O encontro também deu ênfase aos questionamentos sobre o fim da inspeção veicular na cidade de São Paulo, que tinha como objetivo monitorar as emissões de poluentes.

O engenheiro Ricardo Ribeiro, da ABES-SP, que representou o presidente da seção, Alceu Guérios Bittencourt, na mesa de abertura do encontro, lembrou ao público que a ABES completou 50 anos em 2016 e que está aberta às principais discussões do setor.  “Este é um assunto de grande relevância para a sociedade uma vez que continuamente o deslocamento populacional contribui para a formação dos grandes centros urbanos”, disse. “E os desafios como infraestrutura, controle da poluição, saneamento básico e habitação, entre outros, são cada vez mais presentes na pauta da agenda pública, que envolve os governantes e a sociedade”, complementou.

O presidente da AIDIS, Luiz Augusto de Lima Pontes, lembrou que a poluição do ar é uma questão que afeta várias partes da América Latina. “Em várias cidades latino-americanas como Santiago do Chile, México e São Paulo, e em americanas, como Los Angeles, o problema é sério”.

O diretor da Cetesb, Carlos Roberto dos Santos, destacou que cerca de 80% da população que vive nas grandes metrópoles está exposta a concentrações de poluentes acima dos valores orientados pela Organização Mundial da Saúde.  “Quando falamos em poluição, seja atmosférica, do solo, das águas ou do ar, nós intimamente relacionamos este assunto à saúde pública. E nada mais oportuno do que ter um evento como esse para que possamos conhecer os problemas, discuti-los e, acima de tudo, buscarmos soluções.”

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A questão da saúde

O médico sanitarista e ex-deputado federal, Eduardo Jorge, que falou sobre o fim da inspeção veicular em São Paulo, projeto que coordenou quando foi secretário municipal do meio ambiente, elogiou a iniciativa do evento para debater uma questão “que tem reflexo muito grande tanto na saúde pública como na do planeta”, pontuou. “Uma discussão desse tipo levanta elementos científicos necessários para que as autoridades de saúde, de urbanismo, do Legislativo e do Executivo do país assumam suas responsabilidades. As pessoas estão morrendo ou adoecendo por causa do excesso de material particulado e outros poluentes. É um problema sobre o qual a opinião pública precisa tomar conhecimento.”

Para o professor da Faculdade de Medicina da USP Paulo Saldiva, que abordou o tema ‘Saúde Pública e Poluição Atmosférica’, “os níveis de poluição melhoraram muito em São Paulo em relação há 30 anos. Contribuiu para isso uma série de medidas e a mudança da vocação produtora de bens da cidade. Há vários estudos que mostram que a poluição gera doenças relacionadas às inflamatórias”. Segundo o especialista, é importante construir narrativas dos problemas relacionados à poluição que possam ir além do aspecto técnico para as pessoas entenderem.  E os meios de comunicação têm o poder de fazer isso, ressaltou: “Hoje tenho a convicção da importância de dar benefícios para que todos possam usufruir da cidade.”

A médica Agnes Soares, representante da Organização Panamericana de Saúde em Washington (EUA), apresentou a palestra ‘A poluição do ar nos grandes centros urbanos no século 21’.  A especialista fez um panorama da situação da poluição do ar nas principais megacidades do mundo e abordou a situação na América latina.

Segundo Agnes, há países que não têm nenhum tipo de monitoramento ou avaliação de fontes de emissão. ‘É difícil pensar em controle, se não se conhece a situação. Há muito por fazer”, ressaltou. “Este é um momento oportuno para fazer essa debate sobre essa questão da qualidade do ar”, frisou. “É uma oportunidade de incluir não só nas agendas do PNUMA e da OMS, mas também há alguns indicadores de desenvolvimento sustentável que incluem a questão da contaminação do ar”, disse. “Este é um momento de ter um trabalho muito mais integrado, intersetorial e diferente do que tem sido feito até hoje. É preciso inovar no sentido de obter resultados melhores.”

De acordo com a especialista, ainda estamos muito longe do que propõem as guias de qualidade do ar da OMS, e este é um desafio. “Mas é uma região (América Latina) que tem condições de superar esses desafios”, afirmou. “Não temos situações tão dramáticas como na Ásia e na África. É uma grande oportunidade de mostrar nossa capacidade e tentar diminuir esse risco para a saúde pública.”

Países diferentes, problemas similares

Os especialistas do Uruguai, Chile, México e Venezuela apresentaram as dificuldades relacionadas à poluição do ar enfrentadas naqueles países.

Andrea De Nigris, diretora da Qualidade do Ar da Prefeitura de Montevidéu, no Uruguai, falou sobre o tema “Monitoramento da qualidade do ar em Montevidéu, uma história recente”. Segundo ela, no Uruguai não há muitas técnicas voltadas para a qualidade do ar. “Somos uma comunidade relativamente pequena”, diz. “Poder conhecer gente que tem experiência, informações e capacidade técnica e ver que alguns problemas têm origens similares é fundamental. E sempre temos que abordá-los de um ponto de vista criativo, novo, aplicando nas distintas regiões, mas que são os mesmos temas que nos preocupam, como comunicar, a questão das políticas públicas sobre assuntos sumariamente técnicos e complexos e às vezes não são os técnicos que estão fazendo os trabalhos, os que estão melhor capacitados para isso”, salientou. “Este é um desafio, mas vejo que todos estão trabalhando na mesma linha. Nós, do Uruguai, viemos aprender com São Paulo e Cidade do México.”

De acordo com Luiz Sanchez Cataño, diretor da Divisão de Qualidade do Ar – DIAIRE/AIDIS, no México, que apresentou a palestra “Evolução da Qualidade do Ar na Cidade do México”, a similaridade com São Paulo é enorme “em tamanho, diversidade e problemática”, disse. Segundo ele, o México vive atualmente uma crise política e ambiental. “Estamos atualizando nosso esquema de regulação para automóveis e para fontes fixas e é muito importante para o México saber o que São Paulo e outras cidades da América Latina estão fazendo. Agora temos um objeto comum. As estimativas são de que passaremos de 4 ou 5 megacidades para mais de 20 nos próximos 20 anos”, explicou. “Basicamente, todas as capitais dos países latinos têm problemas graves de qualidade do ar. Temos um acordo de cooperação que foi firmado pelos ministros do meio ambiente a nível de governo, mas agora temos que formar vínculos de cooperação com a sociedade civil e associações como AIDIS e a ABES”, afirmou.

Segundo o especialista, a poluição do ar custa mais aos países latino-americanos porque causa mais danos à saúde do que os problemas relacionados à precariedade de água potável. “Temos agir para resolver, porque 25 mil mortes anuais associadas à contaminação do ar na região é uma cota inaceitável”, pontuou.

Carmen Contreras, chefe do Departamento de Normas e Políticas, do Ministério do Meio Ambiente, do Chile, abordou a “Evolução da Qualidade do Ar na Cidade de Santiago” e ressaltou que o encontro marca um ponto importante na reflexão que temos que fazer referente “à sinergia que há entre a contaminação local e os problemas globais, tanto nos trabalhos científicos como acadêmicos, os tomadores de decisões, que desenham as políticas públicas ou que queiram entender como abordar novas ações para a redução da contaminação que afeta as megacidades e que se relacionam também com as mudanças climáticas”, disse. “Esse evento da AIDIS e da ABES é uma grande possibilidade de trocar experiências, de reconhecer avanços, saber onde estamos, trocar ideias e poder lançar nos objetivos de saúde pública e principalmente proteger a população vulnerável aos efeitos da contaminação do ar.”

Abordando a relação entre as mudanças climáticas e a saúde, Juan Carlos Sanchez, da Universidade de Caracas, na Venezuela, destacou que esta é uma associação complexa. “Há muitos fatores que incidem, mas se avançou muito nos últimos anos, principalmente em nossos países, que têm vínculos com o aumento da temperatura, estresse por calor que incide muito na saúde das pessoas”, explicou. “A contaminação do ar, a seca prolongada, cuja maior incidência é o aumento de incêndios da vegetação, que emite muitas partículas causadoras de problemas respiratórios”, Sanchez falou também dos eventos climáticos catastróficos, chuvas intensas e deslizamentos, que afetam a saúde. Além disso, há os e problemas dos vetores transmissores de doenças infecciosas, como dengue, zika e chikungunya. “É hora de muita investigação, pois há muitas perguntas a serem feitas”, concluiu.

“A Importância do Dia Interamericano do Ar e sua repercussão na Saúde Humana” foi o tema abordado por Haydée Aguadé, diretora da Divisão de Ambientes Saudáveis – DIAMSA/AIDIS. “Temos a grande preocupação de fazer chegar à comunidade a recomendação das boas prática, dos cuidados que devemos ter com a qualidade do ar, que não é tão difundido como a questão da água, por exemplo”, explicou ela. Neste sentido, “será que estamos pouco informados ou menos sensibilizados?”, questionou. “A divisão precisa poder transmitir os valores, as situações detectadas pelos especialistas e transmitir à comunidade, e dentro desta os tomadores de decisões, que não são técnicos, mas têm que prover os financiamentos para a preservar e melhorar a qualidade do ar”. Por outro lado, enfatizou, “cada pessoa tem em suas mãos a possibilidade de procurar viver e buscar os meios para que seu entorno seja saudável: na escola, na casa, no trabalho”.

“Esse seminário veio em boa hora porque temos problema de controle de poluição do ar para indústrias, para a poluição veicular, mas este tema está esquecido. Estamos comemorando vitórias do passado e a tecnologia está evoluindo, mas estamos atrasados nisso”, pontuou o consultor Gabriel Murgel Branco, que ministrou a palestra “Próximos Passos para um Futuro Responsável”. “Os debates foram muito interessantes porque vários países trouxeram suas preocupações e dificuldades. E a principal delas é a política”, disse. “Enquanto o político não entender que tem de fazer uma ação de controle, ele não vai fazer”, criticou. “O apoio ao meio ambiente é sempre demagógico. Todo mundo apoia, mas só vale para o outro.”

Temos grandes parcerias nos países da América Latina que estão com as mesmas dificuldades de desenvolvimento, de poluição do ar, e a necessidade de se resolver esses problemas todos. E tudo começa com a troca de informações e soluções. Vamos conseguir atingir os objetivos que queremos. Temos todo o interesse em que se achem soluções técnicas para que a população tenha uma boa qualidade de vida”, disse Elcio Farah, diretor executivo AFEEVAS, patrocinadora do evento.

“São Paulo tem algumas similaridades com relação ao problema da poluição do ar com Cidade do México e Santiago. Alguns sendo solucionados e outros que ainda requerem medidas a serem tomadas. Esse evento traz um pouco de luz sobre as prioridades que precisam ser vistas. Mas a responsabilidade não é só do governo. Todo mundo é parte do problema e todo mundo tem de ser parte da solução”, enfatizou o consultou Alfred Szwarcs.

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Importância do tema

“Quase toda a tarde temos a chegada de um “animal” como esse (referindo-se à supercélula). Esse tipo de nuvem tem impacto em termos de precipitação”, exemplificou o professor Edmilson Dias de Freitas, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, ao falar de ocorrências meteorológicas na palestra “Ferramentas de Apoio à Gestão da Qualidade do Ar”. “Outra preocupação é a própria poluição, ligada ao aumento da população, de carros e do consumo”

Freitas falou também sobre estações de medição de qualidade no ar colocadas em túneis de SP. “Esse tipo de evento é importante pois há pouca discussão sobre coisas que não são de impacto imediato. Vimos temas de áreas diferentes, como emissões e meteorologia, que são relacionadas.”

Segundo Tércio Ambrizi, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, que palestrou sobre as ‘Mudanças Climáticas Globais – Interfaces e Conflitos como Combate à Poluição do Ar”, “na verdade não só está chovendo mais, como as chuvas têm sido mais intensas no Estado de São Paulo.” Ele falou sobre o impacto nas glaciares nos polos, montanhas e no nível do mar. “Foi extremamente positivo. As palestras foram bem organizadas, tiveram uma sequência lógica. A mudança climática é inteiramente interdisciplinar. Quando se fala nela, está se relacionando com saúde, energia, riscos e economia.”

A Química Maria Helena R. B. Martins, gerente da Divisão de Qualidade do AR – CETESB, falou sobre a “Evolução da Qualidade do Ar em São Paulo”. “Temos no mundo mais de 28 cidades com mais de 10 milhões de habitantes. Aqui na Região Metropolitana de São Paulo, as principais fontes de emissão são os veículos automotores”, afirmou. “Até hoje, temos problemas com ozônio e materiais particulados. Temos uma série de programas de controle em curso. O encontro é importante para discutir medidas para que possamos melhorar a qualidade do ar.”

O documento final, contendo as recomendações extraídas deste evento, serão publicadas no site da AIDIS e da ABES-SP até o final do mês.

Confira o documento de conclusões e recomendações do evento aqui

Clique aqui e acesse as apresentações do evento 

Patrocínio:

AFEEVAS – Associação dos Fabricantes de Equipamentos para Controle de Emissões Veiculares para a América do Sul

Apoio:

ABISOLO – Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia em Nutrição Vegetal

AESABESP – Associação dos Engenheiros da Sabesp

Portal Tratamento de Água

Visite São Paulo

CETESB – Companhia Ambiental do Estado de São Paulo

SABESP – Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo

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