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Esporte e inclusão

Diretor da ABES-RS ensina judô para deficientes visuais em Porto Alegre

Por Sueli Melo

Tudo começou em 2002. Na ocasião, Darci Campani, ex-presidente e hoje membro da diretoria da ABES Seção Rio Grande do Sul (ABES-RS) era praticante de judô, desde 1973, e sentiu que precisava se aprofundar nas questões de ensino e treinamento. Enfrentou um vestibular para o curso de Educação Física na Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e em 2005 tinha que definir o tema para o Trabalho de Conclusão de Curso. “Minha esposa estava trabalhando a questão de emprego para deficientes, o que me despertou a ideia de pensar o judô para deficientes”, lembra Campani. “No caso a única categoria de deficiência que tem formalmente atividade são os deficientes visuais”.

O objetivo inicial, explica o engenheiro e professor, foi desenvolver uma metodologia de ensino de judô para deficientes visuais, “pois já tínhamos tido contato com projetos que não conseguiram se manter. Mas com a estrutura da Educação Física (ESEFID) UFRGS tínhamos a expectativa de que poderíamos desenvolver um trabalho mais constante e permanente, o que se concretizou e hoje o projeto vai completar 11 anos”, orgulha-se.

Primeiros passos

camap Ele conta que iniciou o projeto visitando locais nos quais eram desenvolvidos projetos com deficientes como o Instituto Luis Braile e a Escola Municipal Paulo Freire, ambos de Porto Alegre. Convidou alguns interessados para irem para a ESEFID, onde fariam a primeira aula. “Tivemos um grupo inicial de uns 5 a 6 interessados, que começaram a treinar. O grupo era sábado pela manhã e era aberto, mas na prática estavam indo quase que exclusivamente deficientes visuais”, conta Campani. Por dois anos, como explica o professor, os treinos foram realizados no sábado pela manhã, mas após surgiu a necessidade de abrir o grupo. “Alguns familiares começaram a treinar, o que servia de motivação para todos –  o acompanhante, neste caso, é importante, pois alguns se deslocam sozinhos, mas outros ainda precisariam aprender a se deslocar”, explica.

Conforme Campani, desde então, vários outros locais possuem atletas deficientes, mas a participação nas competições de deficientes é realizada como equipe da Associação de Cegos do Estado do Rio Grande do Sul – ACERGS, que é filiada a Confederação Brasileira de Desportes para Deficientes Visuais – CBDV. De acordo com ele, atualmente a equipe da AECRGS tem sido a segunda maior equipe das competições nacionais, sobretudo pelo fato de reunir todos os atletas do estado numa só associação. “Muitos deles participam de competições com videntes (pessoas que enxergam), mas aí competem pelo seu clube – onde treinam, no caso é o circuito olímpico e não o paraolímpico”, salienta.

campaniA equipe, que hoje conta com cerca de 16 atletas, com idade entre 16 e 45 anos começou com muitos deles como faixa branca e foram evoluindo, mas sempre entrando novos atletas. “Hoje temos 3 que já estão na faixa preta, e nos dividimos entre os que participam da competição Adulto e os que participam da Iniciantes”, diz. Nesta categoria, eles já venceram vários campeonatos. “Na Adulto, nosso pessoal precisa mais experiência, o que é difícil, pois experiência implica em dedicação e todos possuem suas vidas para cuidarem”, pondera. “Apesar disso, já temos 5 atletas recebendo Bolsa Atleta, mas os valores pagos ainda não permitem a dedicação exclusiva”. Sobre a faixa etária dos alunos, Campani lembra que já teve praticantes com mais de 45 anos. “Tinha um que tinha nascido um dia depois de mim e na maternidade do hospital vizinho, infelizmente era diabético e a doença avançou e ele não pode mais treinar”.

O judô e a contribuição social

camNessa experiência com o esporte, Campani conta que um dos elementos descobertos em relação ao deficiente visual (DV) – talvez um dos grandes problemas – é o medo que normalmente possuem de cair ao caminhar na rua, pois ele não sabe o que está além da sua bengala. “Com o judô, o cair passa a ser treinado, e perdem este medo. É lógico que não é para que caiam mais, mas o medo leva a não gostar de se deslocar e a se acomodar em casa. O sair, o ir treinar, tira o DV de casa, o aproxima de outros com a mesma dificuldade, o que faz evoluir a sua sociabilidade”, explica o professor. “Isso nos levou, também, a não ter mais uma turma exclusiva para DVs, pois o grau de sociabilidade é maior, além do que desperta nos videntes a naturalidade de convívio com DVs, fator essencial para a real integração na sociedade, que também é um dos objetivos que tínhamos no início”, complementa o ex-presidente da ABES-RS.

Para Campani, o trabalho que desenvolve o torna um ser humano mais completo. “Permito um sonho de uma sociedade mais justa, na qual todos sejam integrados e não tenhamos diferenças pessoais se refletindo na forma como nos relacionamos com os outros”, ressalta. “Faz-me sentir como construtor de uma nova sociedade, e os depoimentos de cada um deles [dos alunos] atesta isto”.

Darci Campani não pode participar da diretoria da ACERGS, cujos membros são deficientes visuais, o que não é fator negativo, conforme ele, pelo contrário “é bastante interessante, pois já estamos com a terceira ou quarta diretoria diferente, o que nos leva a ter que desenvolver uma capacidade de manter o projeto, independentemente da diretoria. Mas sempre respeitando o estilo de cada direção”, pontua.

Campeonatos

campaA equipe comandada por Campani normalmente vai a duas competições anuais, que são realizadas pela CBDV – uma no Rio de Janeiro ou em São Paulo, no início do ano, e outra no final em locais variados. A maior equipe, conforme ele, foi de 16 atletas e 4 de staf (chefe de delegação, ele – técnico, auxiliar técnico e apoio), algumas vezes familiares também foram. O grande problema, porém, é a passagem aérea, como afirma o técnico. “Ano passado e início deste, a ACERGS conseguiu recursos pela Lei de Incentivo, mas agora e em várias outras competições fomos na base da rifa, vaquinha, milhagem”, afirma.

No próximo dia 12 de novembro, acontece o Grand Prix de Belém, no Pará, o campeonato mais forte, segundo o professor. “Normalmente vem muita gente do exterior, pois o Brasil é uma referência no judô paraolímpico internacional”, diz ele e cita Antônio Tenório, o mais experiente, com 5 medalhas olímpicas ,3 de ouro, uma de prata e uma de bronze. “Isto significa 20 anos competindo paraolimpíadas e sempre com medalha. É a nossa figura de maior projeção. A vida dele como atleta já se transformou num filme [a história dele é contada no documentário “B1 – Tenório em Pequim”] que já passou em vários cinemas brasileiros.”

Para esta competição, ele frisa que a questão do deslocamento está complicada. “Estamos, por enquanto, com 13 inscritos, mas 2 que não deverão ir, um por lesão e outro por falta de recursos. Os demais estamos ainda com alguns por confirmar.”

 

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