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Prêmio Jovem da Água de Estocolmo 2022: leia entrevista especial com as vencedoras da etapa brasileira

As alunas do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS), Camily Pereira dos Santos e Laura Nedel Drebes, de 18 e 19 anos, representarão o Brasil na Suécia com o trabalho “SustainPads: Absorventes Sustentáveis e acessíveis a partir de subprodutos industriais”. 

“Já era motivo de orgulho sermos as únicas meninas a concorrer ao prêmio; e recebê-lo foi algo simplesmente incrível, porque representa toda a nossa dedicação e esforço que tivemos durante o desenvolvimento do nosso projeto”, Camily

“Estou muito feliz em representar a ciência jovem brasileira feminina e levar isso para para a Suécia, a ciência que fazemos aqui na cidade de Osório do IFRS, do sul do Brasil”, Laura.  

A etapa brasileira do Prêmio Jovem da Água de Estocolmo, promovido pela Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES), por meio do programa Jovens Profissionais do Saneamento (JPS), teve como grande vencedor um projeto que desenvolve absorventes sustentáveis e acessíveis, criado pelas alunas do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS), Camily Pereira dos Santos, de 18 anos, e Laura Nedel Drebes, de 19.

Os chamados Sustain Pads buscam ser uma solução para a pobreza menstrual e para o impacto ambiental causado pelo descarte dos absorventes tradicionais e atende cinco dos dezessete Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Orientadas pela professora Flávia Santos Twardowski Pinto, as estudantes do Campus Osório do IFRS representarão o Brasil em Estocolmo, durante a etapa internacional da premiação, que será realizada durante a Semana Mundial da Água de Estocolmo, na Suécia. 

A inspiração para o projeto “SustainPads: Absorventes Sustentáveis e acessíveis a partir de subprodutos industriais” surgiu após Camily Santos conversar com sua mãe sobre absorventes ecológicos, quando descobriu a pobreza menstrual.

No Brasil, segundo o relatório Livre para Menstruar, produzido pelo movimento Girl Up, 25% das pessoas com útero não têm um pacote de absorvente à mão durante o período menstrual. 

“Eu acabei descobrindo que a minha mãe não possuía acesso nem sequer a absorventes convencionais quando era menor, então essa foi a primeira vez que eu me deparei com a questão da pobreza menstrual, que afeta milhares de mulheres ao redor do mundo. E eu não imaginava que essa questão estivesse tão próxima de mim e da minha família”, conta Camily. “Naquele momento, comecei a ficar muito instigada por esse problema e a me perguntar: e se houvesse uma alternativa de absorvente, que além de ser ecológico, fosse também acessível às mulheres em situação de vulnerabilidade; e o que eu, uma aluna do ensino médio, poderia fazer em relação a esse assunto? Descobri que eu poderia fazer isso por meio da ciência e então surgiu a ideia de desenvolver um projeto de pesquisa em relação ao assunto”. 

“A Camily teve uma motivação bem pessoal e me escreveu um e-mail dizendo que queria muito fazer este projeto”, comenta a professora Flávia Twardowski. “E a Laura a Laura já vinha desenvolvendo plásticos biodegradáveis, eu não  sabia como seria a interação entre as duas,  mas tinha uma intuição muito grande de que seria uma grande dupla, até porque eram de cursos diferentes”. As duas estão no quarto ano do curso técnico integrado ao ensino médio; Laura cursa Administração e Camily, Informática”, ressalta”.

Laura lembra que em um projeto de pesquisa feito em 2020, também orientado pela professora Flávia, desenvolvia filmes plásticos biodegradáveis utilizando exclusivamente materiais agroindustriais como matéria-prima. “A Flávia me contou da ideia da Camily e perguntou se eu não gostaria de me juntar a elas para desenvolver uma alternativa aos absorventes, utilizando os conhecimentos adquiridos na minha pesquisa”. 

O desenvolvimento dos SustainPads

Segundo elas, o custo dos absorventes desenvolvidos na pesquisa é 95% mais vantajoso economicamente que os convencionais. “Para fazer o algodão dos absorventes, nós analisamos quatro diferentes resíduos provenientes da região: cascas de arroz, sabugo de milho, fibras do pseudocaule da bananeira e fibras do açaí de Juçara. Após os testes, verificamos que as melhores e maiores capacidades absortivas foram obtidas a partir do pseudocaule da bananeira e das fibras do açaí. Já para desenvolver a camada plástica do nosso protótipo, nós estudamos dois diferentes resíduos: do cacau e da indústria nutracêutica, provenientes de cápsulas gelatinosas”, explica Laura. “Os melhores resultados foram os da indústria nutracêutica”.

Após a união do filme plástico e do material absorvente, elas desenvolveram um refil, que é envolvido por tecido proveniente das sobras de costureiras da região. “Nós escolhemos subprodutos industriais tendo em vista que queríamos um produto acessível às mulheres em situação de vulnerabilidade, ou seja, que fosse de baixo custo. Todos esses materiais são descartados em abundância e podem prejudicar o meio ambiente. Então, nós queríamos, não apenas contribuir para a questão da pobreza menstrual e impacto ambiental dos absorventes sintéticos, mas também dar a nossa contribuição para essa alta geração de resíduos nas indústrias”, afirma Camily. 

A professora Flávia diz que a solução final não veio de forma fácil: “A primeira etapa foi encontrar um material absorvente, mesmo sabendo que depois elas fariam invólucro e a camada plástica. Mas isso tudo nós não sabíamos bem como seria e se o material escolhido daria certo ou não”. 

“O que foi muito diferente do que muitas vezes ocorre é que elas já sabiam que queriam fazer um absorvente feminino e às vezes os alunos não sabem isso. Às vezes, os alunos querem produzir um plástico, mas não sabem o que querem fazer com o plástico. Então, elas de fato fizeram um processo inverso e isso é bem mais difícil, porque elas estavam trabalhando com algo que era completamente desconhecido”, destaca Flávia.

A premiação 

Criado em 1997 pelo SIWI – Instituto Internacional de Águas de Estocolmo (Stockholm International Water Institute), o Stockholm Junior Water Prize (SJWP) – Prêmio Jovem da Água de Estocolmo é promovido anualmente em duas etapas: uma nacional, realizada em cada um dos países participantes, e uma internacional, na qual ocorre a grande final. A etapa final acontece em Estocolmo, na Suécia, durante a Semana Mundial da Água de Estocolmo (Stockholm World Water Week) e será entre 29 de agosto e 2 de setembro. 

O evento da premiação no Brasil aconteceu no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, integrado à agenda da Conferência Internacional Rio 2030, abrindo os diálogos com a sociedade civil na comemoração dos 30 anos da Eco92 e propondo discussões sobre a economia verde e a moda sustentável. 

Camily diz que não esperava o recebimento do prêmio máximo: “só de estar lá, prestigiando todo aquele evento, já era um motivo de vitória, foi um momento muito incrível para todas nós. Foi uma experiência muito boa, aproveitamos muito estar lá representando a ciência Brasileira. Já era motivo de orgulho sermos as únicas meninas a concorrer ao prêmio; e recebê-lo foi algo simplesmente incrível, porque representa toda a nossa dedicação e esforço que tivemos durante o desenvolvimento do nosso projeto”, frisa.

“Eu ainda estou transbordando de tanta emoção, de tanta alegria por tudo o que a gente viveu lá no Rio de Janeiro. Foi uma Felicidade muito grande já ter sido selecionada como um dos cinco projetos finalistas do Brasil, isso já tinha sido uma emoção muito grande, já estava muito orgulhosa de todas nós”, comenta Laura. “Mas quando nós recebemos o prêmio Jovem da Água de Estocolmo da etapa Brasileira foi sensacional. É fruto de muita dedicação, muito trabalho em equipe de todas nós e eu estou muito feliz em representar a ciência jovem brasileira feminina e levar isso para para a Suécia, a ciência que fazemos aqui na cidade de Osório do IFRS, do sul do Brasil”, diz, orgulhosa.

“Nós criamos laços, memórias e experiências com todos que estavam lá,  fomos recebidas e acolhidas com muito carinho desde o início”, completa a estudante.

A orientadora das meninas conta que o primeiro lugar foi inusitado. “A gente realmente não foi com a expectativa e acabou recebendo essa oportunidade de representar o Brasil no evento. Como tudo aconteceu foi muito especial. Um amigo meu do colégio que faz parte da ABES do Rio Grande do Sul sabia que eu desenvolvo projetos de pesquisa com meninas e insistiu que eu inscrevesse um projeto para o Prêmio”. 

Sobre as expectativas para Estocolmo, Laura conta que está muito animada em “levar e contar sobre ciência brasileira e toda essa representatividade feminina”. Camily acredita que a experiência será incrível só de ter contato com jovens de outros países, culturas e realidades: “vai ser um momento de muito desenvolvimento, onde nós iremos nos conectar com outros jovens e também iremos amadurecer e nos desenvolver através dessas conexões, expandindo os nossos horizontes e visões de mundo”. 

Mulheres na ciência

Ainda hoje, mulheres enfrentam preconceitos e desafios na ciência, mas a cada dia se formam mais mulheres cientistas como Camily e Laura. Para a professora Flávia, ter mais mulheres cientistas é importante não só pela diversidade, mas também “porque quanto mais tivermos mentes diferentes, teremos melhores respostas,  resultados e soluções. E a diversidade não está apenas no gênero, está nas nossas crenças e culturas. Se todo mundo pensar igual, a gente não vai ter as melhores soluções. Então, ter mais mulheres, quando hoje elas são poucas, é muito importante para que a gente tenha melhores respostas e, especificamente, ter mais meninas acaba sendo um exemplo para as outras”, sublinha.

“Quando elas pensam em cientistas, ou pensavam, elas viam Einstein, uma pessoa de mais idade, homem e branco, então elas conseguirem ver que existem diferentes pessoas, de diferentes culturas, representando a ciência, elas terão um exemplo a seguir e vêm que é possível, não importa a idade”, complementa Flávia. 

Laura, que deseja fazer medicina no futuro, conta que a professora Flávia é seu grande exemplo e pensou em fazer ciência com ela quando viu notícias de meninas, orientadas pela professora, se destacando pela ciência na região e internacionalmente. “Isso é muito grandioso, porque a gente acaba sentindo que nós podemos sim fazer a diferença dentro da nossa comunidade e no mundo”. 

“No meu caso, como eu também gosto muito de matemática desde o ensino fundamental, sempre gostei de estar envolvida nessa área”, conta Camily. “Eu comecei a perceber certos estereótipos, como se mulheres não pudessem também participar das áreas exatas. Eu quero muito fazer engenharia no futuro e é uma coisa que a gente começa a refletir sobre a representatividade na área das exatas, nas engenharias.

Eu comecei a refletir se essa seria realmente uma área pra mim. Então assim, é uma questão que deve ser incentivada, mais meninas precisam ser incentivadas a seguirem na área das exatas, na ciência. Isso é muito importante, porque, além de mim, muitas outras meninas sonham com isso e precisam ter um exemplo e ver que é possível, que uma mulher já chegou até lá e muitas outras podem seguir”.

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