Durante anos, discutimos adaptação climática como um tema do futuro. Um desafio que exigiria respostas daqui a algumas décadas.
Essa janela se fechou.
O que abrimos nesta segunda-feira, 25 de maio, na Brazil Water Week 2026, não foi apenas mais uma edição de um evento técnico. Foi um chamado coletivo, reunindo profissionais, autoridades, especialistas e instituições de diferentes países, para reconhecer que a agenda climática já é uma realidade operacional, financeira, ambiental e regulatória.
Ela está aqui. Agora. No presente.
Secas severas pressionam mananciais de abastecimento. Enchentes impactam redes de drenagem, estações de tratamento e infraestruturas urbanas essenciais. A expansão das cidades, muitas vezes em territórios vulneráveis, desafia sistemas concebidos para outro padrão de ocupação, outro regime de chuvas, outro nível de risco.
Esses não são apenas cenários futuros. São desafios concretos que já fazem parte da rotina do saneamento.
O Brasil vive, ao mesmo tempo, um ciclo histórico de expansão do setor. Com o Marco Legal do Saneamento, assumimos o compromisso de universalizar os serviços de água e esgotamento sanitário até 2033. Esse movimento mobilizou investimentos, atraiu novos atores, acelerou projetos estruturantes e recolocou o saneamento no centro da agenda nacional de desenvolvimento.
Essa é uma conquista relevante e precisa ser preservada.
Mas a universalização que o Brasil precisa entregar não pode ser apenas quantitativa. Precisa ser sustentável, resiliente e preparada para um clima em transformação.
Muitos contratos, planos e modelos regulatórios foram estruturados com base em premissas históricas de demanda, disponibilidade hídrica, frequência de eventos extremos e custos operacionais. A realidade mostra que essas premissas precisarão ser continuamente revisitadas, com segurança jurídica, transparência, equilíbrio e responsabilidade institucional.
A pergunta que se coloca não é quem está certo ou errado. A pergunta é: como preparar o setor para continuar investindo, universalizando e garantindo serviços de qualidade em um ambiente de risco climático crescente?
É nesse ponto que a regulação assume papel decisivo.
Precisamos avançar para uma regulação capaz de acompanhar a velocidade das transformações climáticas, tecnológicas e econômicas. Uma regulação que dê previsibilidade aos investimentos, preserve o equilíbrio dos contratos e incentive soluções que aumentem a resiliência dos sistemas.
Isso significa, em primeiro lugar, incorporar de forma mais estruturada o risco climático ao planejamento, aos contratos e aos mecanismos de revisão. Eventos extremos que ultrapassem padrões historicamente considerados não podem ser tratados apenas como exceções administrativas. Devem ser compreendidos como parte da nova arquitetura de risco do saneamento.
Significa também valorizar metas que olhem não apenas para cobertura, mas para qualidade, continuidade, segurança hídrica e capacidade de resposta dos sistemas. Universalizar é essencial. Mas universalizar com infraestrutura vulnerável a eventos extremos não será suficiente.
Outro ponto fundamental é criar condições regulatórias para que as estações de tratamento de esgoto avancem para o conceito que temos debatido na Brazil Water Week: verdadeiras biofábricas, capazes de recuperar água, energia, nutrientes e outros recursos. A economia circular no saneamento não dependerá apenas de boa vontade técnica. Ela ganhará escala quando houver incentivos adequados, reconhecimento regulatório e modelos capazes de capturar o valor gerado por essas soluções.
O mesmo vale para o reuso de água. Em um país que convive com desigualdades regionais, pressão sobre mananciais e eventos climáticos cada vez mais severos, o reuso precisa ser tratado como estratégia estrutural de segurança hídrica, e não como alternativa residual.
A experiência internacional mostra que os países que avançaram nesse tema o fizeram com marcos regulatórios consistentes, redução da insegurança jurídica, clareza de responsabilidades e confiança para operadores, usuários e investidores.
O Brasil tem muito a aprender. E também muito a ensinar.
Na Brazil Water Week 2026, a ABES reúne representantes de organismos nacionais e internacionais, agências reguladoras, operadores, academia, setor privado, governos e especialistas de diferentes países para promover exatamente esse diálogo: técnico, plural, responsável e orientado à construção de soluções.
Esse é o papel histórico da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental: criar pontes entre conhecimento, política pública, regulação, inovação e prática operacional. A ABES não apenas acompanha os grandes debates do saneamento. Ela ajuda a qualificá-los, conectando pessoas, instituições e ideias para que o setor avance com base técnica, visão de futuro e compromisso público.
A Brazil Water Week expressa essa missão. É um espaço para o Brasil comparar experiências, aprender com outros países, apresentar suas conquistas e liderar uma agenda internacional cada vez mais urgente: a construção de sistemas de saneamento resilientes, inclusivos e preparados para os desafios climáticos.
Não haverá universalização sustentável sem saneamento resiliente. Para termos um saneamento resiliente, precisamos apoiar a construção de uma regulação à altura dos desafios do nosso tempo.
Esse é o trabalho que temos pela frente. E é também uma grande oportunidade: fazer do saneamento brasileiro uma referência global de adaptação, inovação e compromisso com as próximas gerações.
Marcel Sanches
Presidente Nacional da ABES
Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental