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Brazil Water Week: da reflexão à ação

O primeiro dia do Brazil Water Week 2026 estabeleceu o tom que o evento veio construir: saneamento como questão de equidade, tecnologia e contrato social. As discussões percorreram desde os desafios de levar infraestrutura sanitária a áreas urbanas informais, com experiências da América Latina trazidas por Agustín Landaburu e Diego Polanía, ao lado de representantes brasileiros como Alceu Guerios Bittencourt e Luís Antônio Almeida Reis, da Caesb — até a provocação vinda de Windhoek: a capital da Namíbia, que há décadas opera um dos sistemas mais avançados do mundo em reúso direto de água potável. No fim da tarde, o debate se deslocou para dentro das operadoras, com a sessão sobre inteligência operacional e decisão baseada em dados, e encerrou com uma discussão densa sobre a sustentabilidade econômica dos contratos de longo prazo, tema que, no contexto do Marco Legal do Saneamento, ressoa diretamente no presente do setor brasileiro.

Se o primeiro dia perguntou como chegamos até aqui, o segundo trouxe uma agenda voltada para para onde vamos.  ETEs que produzem recursos, diplomacia hídrica entre nações, engenharia de resiliência e o direito à água segura compuseram um programa que ampliou a escala do debate, do quintal das cidades ao palco geopolítico global. Confira:

ETEs como Biofábricas: do Tratamento de Esgotos à Produção de Recursos Estratégicos

A sessão abriu o segundo dia do BWW com uma provocação central: e se as estações de tratamento de esgoto deixassem de ser vistas apenas como infraestrutura de saneamento e passassem a operar como verdadeiras fábricas de recursos? Germán Buitron, da Universidade Nacional Autônoma do México, Olaf van der Kolk, da AquaMinerals, e Amanda Lake, da Jacobs Water Europe, apresentaram experiências internacionais de recuperação de nutrientes, energia e materiais a partir do tratamento de efluentes. Moderada por André Bezerra dos Santos, da UFC e do INCT ETEs Sustentáveis, e com a contribuição da debatedora Ana Soares, da Cranfield University, a discussão apontou caminhos concretos para reposicionar as ETEs no centro da economia circular do saneamento.

Diplomacia Hídrica e Gestão de Conflitos Transfronteiriços

Água como recurso compartilhado, tensão geopolítica e a necessidade de acordos duradouros entre nações estiveram no centro desta sessão. Benedito Braga, presidente honorário do Conselho Mundial da Água, Marco José Melo Neves, da ANA, e Moina Alhajji, engenheira síria especializada em WASH e diplomacia da água, trouxeram perspectivas complementares sobre os desafios de governar bacias hidrográficas que cruzam fronteiras. A moderação foi conduzida pelo presidente nacional da ABES, Marcel Sanches, que situou o debate no contexto da crescente pressão climática sobre recursos hídricos compartilhados.

Engenharia da Resiliência Hídrica

Como planejar sistemas hídricos capazes de resistir e se adaptar a eventos extremos cada vez mais frequentes? A sessão reuniu Suzana Montenegro, presidente da Agência Pernambucana de Água e Clima (APAC), John Matthews, da Alliance for Global Water Adaptation, e Veronika Zhiteneva, da Waterloop Solutions, para debater abordagens técnicas e institucionais de resiliência. Moderada por Mara Ramos, da Sabesp, a conversa articulou experiências regionais brasileiras com práticas internacionais, evidenciando que resiliência hídrica exige tanto engenharia robusta quanto governança adaptativa.

Água Segura

A última sessão da tarde voltou o olhar para um direito ainda não universalizado: o acesso à água potável segura. Charlotte Akwaah-Adjei, do Ministério de Saneamento e Recursos Hídricos de Gana, Fernando Jorge Magalhães Filho, do IPH e INCT SbN, e José Carlos Mierzawa, da Escola Politécnica da USP, debateram tecnologias, políticas públicas e soluções baseadas na natureza aplicadas à qualidade da água. A sessão foi moderada por Roseane Garcia, diretora da ABES-SP, e encerrou o dia reafirmando que garantir água segura para todos segue sendo o compromisso central do setor.

O que vem por aí no terceiro dia!

Nesta terça-feira, o BWW aprofunda dois eixos que atravessaram os debates desta semana: a resposta aos riscos climáticos e a transformação digital do saneamento. O dia abre com planejamento adaptativo, reunindo especialistas de Melbourne, Lyon e da rede europeia RIOB para discutir como cidades e bacias hidrográficas podem antecipar e absorver os impactos de um clima em mudança. Na sequência, a agenda volta às ETEs, agora com foco em eficiência em escala, retrofit e recuperação de recursos, com nomes de peso da IWA e de Delft. No meio do dia, a ANA traz um painel dedicado ao monitoramento de secas, tema de urgência crescente para o Brasil. A tarde reserva ainda uma sessão sobre governança e regulação do saneamento rural, com vozes da Angola, Honduras e da Sabesp e encerra com o debate sobre automação, monitoramento inteligente e transparência operacional, conectando tecnologia a accountability no setor. Uma programação densa, com perspectiva global e aplicação direta à realidade brasileira. Não perca!